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O campo da Cultura (3) – O leitor formiguinha
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Opinião

O campo da Cultura (3) – O leitor formiguinha

Peço a quem segue benevolamente as crónicas que aqui vou publicando, o favor de ler (ou de reler), o que publiquei nas duas anteriores: O CAMPO DA CULTURA (1 e 2, respectivamente, em 24 de Maio e 7 de Junho). Nelas, como então disse, explano algumas ideias (e cito largas passagens) de obras de Hanna Arendt, com o fito de posterior reflexão sobre alguns dos problemas contemporâneos da cultura, da democracia e da política. E é isso que agora inicio, sem presunções de exaustividade, mas apenas como despoletadores de conversa.

Recorrentemente, porque tenho a dupla “maldição” de ser escritor e editor, deparo-me com o problema do leitor. A sociedade de consumo não criou apenas a mercadoria e o desejo de a consumir, de certo modo “criou” igualmente o consumidor médio, isto é, uma massa de leitores-consumidores, predispostos (e “desejosos”) de adquirir e de (eventualmente) ler os livros-mercadoria. Recordo o que diz Hanna Arendt: «As mercadorias que a indústria do entretenimento oferece não são “coisas”, objectos culturais, nem valores, são bens de consumo destinados a ser usados até se gastarem, como quaisquer outros bens de consumo.» Temos, portanto, o “leitor” (diferente daquele que, parafraseando Gabriela Llansol – que distingue escritor de escrevente –, poderíamos chamar de “legente”). Este leitor, e somente nesta estrita acepção, também poderia ser chamado de “leitor formiguinha” (expressão que me foi recordada pelo escritor António Cabrita), ou seja, aquele que precisa de carreiros (mentais, emocionais, comportamentais, traduzidos em certos tipos de escrita) para iniciar e seguir um livro até ao fim, sem se sentir inseguro, perdido, desnorteado; aquele leitor que, muito provavelmente sem se ter dado conta disso, foi formatado nos seus processos de leitura, também muito provavelmente desde criança, nos seus processos não apenas cognitivos, mas, fundamentalmente, nos modos como se ancora o seu prazer (de leitura); aquele leitor que fez “embodiment” de valores, de visões do mundo apertados em estreitos limites; aquele leitor que, num romance, não pode andar para “atrás” e para a “frente”, que precisa para cada expressão, situação ou transmissão de emoções, de uma clara e óbvia “razão” ou “justificação”; aquele leitor que, em última instância, é absolutamente capaz de aceitar que ler é, também, um acto de confronto, de dificuldade com a própria escrita, de confronto com mundivisões que o podem colocar radicalmente em causa em diversos domínios do seu ser, que o podem colocar em causa “tout court”. Este leitor, é aquele que consome, maioritariamente, romances (“thrillers”, fantásticos, “new wave”, históricos, etc), livros de vedetas televisivas e de futebolistas, de escândalos (sexuais, políticos & outros), etc., etc. Este leitor, é aquele que não consome (se recusa a ler) livros de poesia (embora possa gostar de uns versos da senhora da aldeia que faz rimar “amor” com “dor”), e de filosofia (e afins) apenas aqueles que foi obrigado a “dar” na Escola.

Este leitor é aquele leitor que muito provavelmente não chegou a esta linha do texto (ou que a ela chegou chamando nomes impróprios ao autor).

Para a semana há mais.

(Por vontade do autor, este texto desobedece ao Acordo Ortográfico).

http://bloguecam.wordpress.com/ | camlisbon@yahoo.com

2013-06-14 08:00:00

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