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A evocação da gesta do povo português no Dia de Portugal
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Opinião

A evocação da gesta do povo português no Dia de Portugal

Numa crónica publicada esta semana no Açoriano Oriental, Carlos Melo Bento alvitra que o Dia de Camões e das Comunidades deveria ocorrer a 4 de março, data em que nasceu o Infante Dom Henrique. Mas eu não creio que este último merece esta distinção.

Aquele conhecido cronista e historiador micaelense discorda do 10 de junho por ser a data da morte de Luís de Camões, que faleceu pobre, abandonado sob os cuidados de um escravo. O vate épico ocupando o ponto mais alto da literatura nacional andava de muletas porque a inquisição lhe havia partido as pernas. Arrastar-se-ia pela mão do criado dedicado, paupérrimo como ele, pedindo dádivas em troca dos seus versos. Naquele dia, Portugal encheu-se de vergonha.

A morte do autor de Os Lusíadas, coincidiu com a ocupação do trono português pela coroa de Castela em 1580, segundo as normas vigorando sobre a sucessão dinástica reconhecida pela Santa Sé. Diz-se que ao finar-se, Camões teria lamentado num sussurro plangente, na expressão profundamente dolorida de quem vê a morte como a esperança numa salvação mística: «morro com a pátria».

Camões é uma figura trágica em cuja desgraça pessoal muitos portugueses observam projetado o seu destino como povo que foi herói da sua obra grandiosa evocando a expansão marítima de Portugal. Teria antecipado em quase cinco séculos a derrocada da soberania do Estado português que num sentido pragmático se realiza neste momento. Já tomara forma desde que as Constituintes de 1822 fechavam os olhos ao país pluricontinental que António Vieira e até Sebastião de Carvalho, o Marquês de Pombal e primeiro ministro de Dom José, como Sousa Coutinho no Rio de Janeiro vislumbravam no futuro. Portugal rejeitou, perentoriamente, a igualdade da Metrópole aos territórios ultramarinos no exercício do poder. João VI sacrificara à posição de protetorado de facto da Inglaterra a unidade nacional. A última tentativa de evitar a catástrofe ficou gorada com a subida de Marcelo Caetano ao pedestal da ditadura em 1968, em vez de se dar crédito à visão de Adriano Moreira. Moreira chegou a vislumbrar uma capital mudável e a sua transferência imediata para Luanda. Depois do fracasso do Brasil, era em Angola que se realizaria o sonho do desenvolvimento do país modelado segundo o paradigma americano.

Não obstante esta história ímpar e brilhante, o povo português, como mas horas amargas do triunfo filipino, sofre agora, de novo, as consequências terríveis da incúria de governantes incompetentes. E da influência, ao que por vezes se alega, de grupos desonestos ao serviço de interesses estrangeiros. Foi assim naquela segunda metade distante do século XVI, em que o Estado se reduzia ainda à coroa de um monarca e à propriedade da classe dominante.

Estou de acordo que o 10 de junho foi uma má escolha. Nem compreendo como ainda o consentem. Porque aquele dia, mutatis mutandis no contexto do fluxo ininterrupto do processo a que se chama cultura numa dimensão antropológica, quando muito, recorda-nos a injustiça e a arbitrariedade do poder central para com uma legião de servidores de Portugal. Mas não creio que o Infante Dom Henrique detém a imagem histórica mais representativa da gente portuguesa. À volta dele se criou, todavia, um mito quando os ingleses também o quiseram elevar a figura planetária, alegando um elo genético com os filhos da Dona Flipa de Lencastre. Naquele tempo, ainda a classe determinava a qualidade do individuo como cidadão e membro da sociedade, como se genes aristocráticos fossem os determinastes da inteligência como Sir Galton em vão buscou no século XIX na primeira recolha de dados psicométricos em qualquer país.

A evidência histórica que se avoluma cada vez mais, depois dos trabalhos dos falecidos Francis Rogers, da Universidade de Harvard, e Peter Russell, da Oxford, é de que o herói das Descobertas foi Dom Pedro, morto em Albufeira, e não o irmão, o Infante D. Henrique. Aliás, quando ele morreu, depois de ter pedido ao irmão para que interviesse no desentendimento com o sobrinho, Afonso V, as tropas do sul ao serviço do homem de Sagres estavam ao lado do Duque de Bragança.

Às intrigas deste último, Afonso, filho bastardo de D. João I, se deve a crise moral que perante toda a Europa criou ao longo de uma geração a perceção de que o sobrinho do Duque de Coimbra se portara como um bárbaro. Foi a maldição que se terá confirmado no fim sangrento da monarquia e do fiasco da Casa de Bragança. O cadáver de Dom Pedro ficou por três dias onde caíra sem cota de malha, sem escudo, de peito e cabeça descobertos como nenhum guerreiro com a sua experiência se apresentaria num campo de batalha.

Imagine-se a dor da rainha, que via o pai assim vilipendiado na sua hora mais aflita de filha, coberta de negro e grávida. O Infante Dom Pedro fora abandonado como um animal, sem que lhe encomendassem a alma ao seu Criador segundo o rito da Igreja que o reconhecera com inúmeras honras para além da fronteira do reino e até junto à sede papal. Na Inglaterra, fora o primeiro português a receber a homenagem dos Plantegenetas emergentes sobre a Casa de York, integrado na mais distinta das ordens militares inglesas.

Ao exalar o último suspiro, trespassado por uma flexa com que Afonso V recebeu o tio, ao seu lado, decerto com o terror estampado nas faces de menino, estava um filho, criança ainda, que só escapou, subsequentemente, à vingança do rei por intervenção da corte de Aragão. Até esta criança fora aprisionada como um facínora adulto. Seria um dia, de modo emblemático, o primeiro bispo da Madeira, decerto no reconhecimento papal do papel de Dom Pedro na expansão marítima em que se urdiria a epopeia da gente lusa.

De resto, àquilo que Eanes de Azurara deixou implícito na crónica de Dom Henrique talvez se deve dar maior atenção do que à narrativa que o cronista deixou como eco do biografado. Azurara fez questão de dizer de modo subentendido que a versão dos eventos era a que ouvira do anacoreta de Sagres. Quase se desculpava que fora informado pelo primeiro Duque de Viseu.

Já em decomposição, o corpo do mártir de Albufeira foi dali retirado por amigos porque o rei não lhe quis prestar ao menos a cortesia de um funeral a que tinha direito como pai da rainha. Fora ainda mentor do rei, que criara como a um filho. Dom Pedro, figura das mais marcantes entre as personalidades da intelectualidade europeia do seu tempo e de soldado na defesa da Europa cristã, expressara mesmo a estatura do seu caráter íntegro ao ser o primeiro, entre todos os membros da corte, ao jurar obediência a Afonso V. No alvorecer da Renascença, chocavam duas conceções do poder. Dom Pedro não retirava ao rei a chefia do Reino e a sua autoridade inerente. Mas entenderia que um monarca não era o dono absoluto e arbitrário do que hoje se consideraria o Estado, sob a influência inglesa e a mentalidade procedente da Europa. Dom Henrique decerto poderia prevalecer sobre o Duque de Bragança. Mas não fez. Não cabe neste artigo explorar a colisão potencial dos dois irmãos, em que o desaparecimento de Pedro, pináculo intelectual dos filhos de João I, deixaria o Infante Dom Henrique como o último símbolo da geração de Aljubarrota e retentor emblemático da glória dos Descobrimentos. Em 1411-1412, Pedro ter-se-ia oposto à obsessão de Henrique com o assalto a Granada, quiçá como prelúdio da contestação da predominância castelhana na Ibéria. Prevalecera sobre a impulsividade de Henrique, que por pouco lhe teria valido a vida no norte de África, na persuasão do monarca.

Eu sugiro que se alguma data demarca de modo simbólico um Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, ou a data em que se celebra Portugal e os portugueses, nenhuma coincide em março ou junho. É no mesmo mês da conquista de Ceuta, em agosto, no dia 14, que se deveria evocar o papel histórico do país e a própria existência da mística nacional a que se chama a portugalidade. Naquele dia, em Aljubarrota, no ano de 1385, os portugueses se afirmaram um povo e garantiram a capacidade de proteger a sua identidade política. Ocorreu então um acontecimento assinalando na história da Península Ibérica um novo equilíbrio. As fronteiras com Castela tinham sido estabelecidas, finalmente.

Dom João, Mestre de Avis, o primogénito da Ínclita Geração, fora aclamado pelo povo num ato de pura democracia no contexto do seu tempo. Pela primeira vez, o poder da coroa se fazia com o povo, unido num gesto coletivo de acordo sob a persuasão brilhante da palavra de João das Regras. Com João I nasceu a ideologia nacional.

Em Aljubarrota se firmou a aliança entre o povo e o rei, que permitiria a conquista de Ceuta em 1412, num ambiente a que Filipa de Lencastre inseriu a cortesia do trato, o esplendor do vestido vindo da Flandres e a etiqueta na refeição e o cerimonial entre as damas do seu séquito. Mais do que isto, conferiu à corte o papel do saber que se cultivaria na educação dos filhos e sobretudo de Dom Pedro, estudioso de filosofia e geografia clássica. Nos campos de luta onde a gente portuguesa verteu o seu sangue, ainda hoje e para sempre sagrados no contexto da existência do povo português, nenhum outro local assume um papel tão alegórico e capital na gesta lusa. Antes, quando Portugal era ainda galego, Afonso Henrique se fizera vassalo da Santa Sé a fim de anular as pretensões de Castela de submetê-lo como feudatário.

2013-06-14 08:00:00

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