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Opinião
Somos seres de contrários
Nós, os humanos, somos originária e radicalmente seres de contrários. Primeiro é o nosso ser que o manifesta, a nossa própria constituição psico-física: o vigor do nosso corpo jovem em crescimento contrapõe-se à candura e à vulnerabilidade da nossa mente em formação, como a agilidade e perspicácia da nossa mente amadurecida se contrapõe à debilidade do nosso corpo envelhecido. Depressa o pensamento evidencia também a contradição de que enferma dominado por um modelo binário que conhece o dia pela noite, o frio pelo quente, a alegria pela tristeza, a vida pela morte. Ao mesmo tempo, também a nossa acção revela uma implacável contradição: queremos permanentemente o que não possuímos, valorizamos o que nos é mais distante. E o nosso ser, pensar e agir são também entre si contraditórios: ora agimos para além do que pensamos, ora pensamos sem que o realizemos, ora definimos o nosso ser de acordo com a nossa acção, ora agimos ultrapassando o nosso modo de ser, ora pensamos em conformidade como o que somos, ora vamos moldando o nosso ser pela forma de pensar.
Mas sermos verdadeiramente contrários implica ainda uma suprema contradição, a de aspirarmos incansavelmente à harmonia no âmago da nossa profunda desproporção. Esta é, talvez, a nossa razão de ser, isto é, a de tentar sempre negar o que somos sem jamais o conseguir e assim permanecermos seres de contrários.
2008-05-30 02:05:00












